20081216

O Jardim Secreto II

Escasso de viço e farto de ervas daninhas.
Morto?!

20081211

"Close To The Edge"

Filtrar as infiltrações mundanas.
Caríssimos, isso é pouco ante uma alma supostamente arraiana.

20081129

Juntos...

Até que aquela tênue corda rompa-se e nos separe.
(É necessário que nos matemos às vezes, não é?)

20081118

O Jardim Secreto

Diz a Rosa: "Vivo sonhando com um Lírio a alegrar o meu jardim."

20081115

Honradez?

"Nunca profanei o sagrado nome do amor." (F. W. Nietzsche)

20081112

Oscar Wilde

O ROUXINOL E A ROSA
_ Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas não vejo nenhuma rosa vermelha no jardim.
Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o, ficou admirado...
_ Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – repetiu o Estudante, com os lindos olhos cheios de lágrimas – Ah! Como depende a felicidade de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A Filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.
_ E eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Gorjeei-o noite após noite, sem conhecê-lo, no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto, e os lábios, vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.
_ Amanhã à noite o Príncipe dará um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar-lhe uma rosa vermelha, dançará comigo até a madrugada. Se levar-lhe uma rosa vermelha, hei de tê-la nos braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa à minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... E ficarei só; ela apenas passará por mim... Passará por mim... E meu coração se despedaçará.
_ Eis, na verdade, um apaixonado... – pensou o Rouxinol – Do que eu canto, ele sofre. Aflige-o o que me alegra. Grande maravilha, na verdade, o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.
_ Os músicos da galeria – prosseguiu o Estudante – tocarão os seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará. Dançará tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho, e os cortesãos, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... – e, atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.
_ Por que está chorando? – perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.
_ É mesmo! Por que será? – Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.
_ Por quê? – sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.
_ Chora por causa de uma rosa vermelha
informou o Rouxinol.
_ Por causa de uma rosa vermelha?! – exclamaram – Que coisa ridícula!
E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade.
Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.
Subitamente, abriu as asas pardas e voou.
Cortou, como uma sombra, a alameda; e como uma sombra, atravessou o jardim.
Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e pousou num galho.
_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!
_ Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.
Então o Rouxinol voou para a roseira que enlaçava o velho relógio-de-sol.
_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu te cantarei minha canção mais linda.
A roseira sacudiu-se levemente.
_ Minhas rosas são amarelas como a cabeleira dourada das sereias que repousam em tronos de âmbar, e mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez te possa ajudar.
O Rouxinol então dirigiu o vôo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.
_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu
e eu te cantarei minha canção mais linda.
A roseira sacudiu-se levemente.
_ Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.
_ Eu só quero uma rosa vermelha
repetiu o Rouxinol uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?
_ Há, respondeu a Roseira, mas o meio é tão terrível, que não ouso revelar-te.
_ Dize. Não tenho medo.
_ Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar; tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.
_ A Morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha – exclamou o Rouxinol – e a Vida é preciosa... É tão bom voar através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado, e a lua em seu carro de pérola... O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor do que a Vida. E o que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?
Abriu as asas pardas para o vôo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.
O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lágrimas.
_ Rejubila-te! – gritou-lhe o Rouxinol – Rejubila-te! Terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá. Em conseqüência, só peço-te que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia, embora sábia; mais poderoso que o poder, embora poderoso. Tem as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em seus braços e seu hálito lembra o incenso.
O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pôde entender, porém, o que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.
Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.
_ Canta-me um derradeiro canto – segredou-lhe – sentir-me-ei tão só depois da tua partida.
Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.
Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.
_ Tem classe, não se pode negar – disse consigo, atravessando a alameda
Mas terá sentimento? Não creio. É igual à maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa em cantar e bem sabemos o quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!
Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.
Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais enterrou-se-lhe no peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...
Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto. Era pálida, a princípio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da roseira.
Mas a roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho.
_ Mais ainda, Rouxinol, exigiu a roseira, senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.
O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher.
E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.
Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco – pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de uma rosa.
_ Mais ainda, Rouxinol
clamou a roseira – não deixe raiar o dia antes que eu finalize a rosa.
E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou.
Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.
E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.
Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer, e uma névoa cobriu-lhe o olhar; o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.
Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.
Ouviu-no a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu.
A rosa vermelha o ouviu e, trêmula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã.
Transportou-no o Eco à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele os levou através dos caniços dos rios, e eles transmitiram sua mensagem ao mar.
_ Olha! Olha!
exclamou a roseira – A rosa está pronta, agora!
Ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou.
_ Que sorte! – disse – Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.
Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.
_ Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha
lembrou-se o Estudante – Aqui tens a rosa mais vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la hoje à noite sobre o coração, e quando dançarmos juntos, ela te dirá o quanto te amo.
Mas a moça franziu a testa.
_ Talvez não combine bem com o meu vestido
- disse - Ademais, o sobrinho do camareiro mandou-me jóias verdadeiras; e jóias, todos sabem, custam muito mais do que flores...
_ És muito ingrata! – exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa à sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.
_ Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... Não acredito que tenhas fivelas de prata nos sapatos, como as tem o sobrinho do camareiro... – e a moça levantou-se e entrou em casa.
_ Que coisa imbecil, o Amor! – resmungou o estudante, afastando-se – Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada; está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático. E como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar Metafísica.
Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...

20081108

À Surdina

O Amor, então, seria um crime perfeito?
Perfeitos cúmplices, perfeitas vítimas?!

Tri (Legal?!)

Videia bem-bem-bem...
Tua britva, bezúmine,

é teu malenque sintemesque
que tu brosatas
qual gronque quel, nadsate!

Brada, pois, em vão,

tuas tchipucas, brétchene!
Ah! Platcho pelo teu vredado litso,
prestúpnique nadmenhe!

Vai! Rassudoca acerca
das vindouras
toltchocadas,
ujássine forela!

Eu quero o teu crove, maltchique!

AVISO: AQUI NÃO, SEVANDIJA!

Eternamente

Minha vida é um diário aberto com algumas anotações a serem, fortuitamente, apagadas.
AMÉM, AMÉM.

Quatro por Dois

"Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes. No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo o ascetismo da ioga... O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira." (Antônio Maria)

20081106

Telúrica

"Essa rosa branca
É de todas as cores
É um punhal de neve
É um canhão de vidro
É um colchão de nuvem
Numa cela acesa
É meu pé na terra
É meu pão na mesa
Na mesa, na mesa..."

(Taiguara - "
Aquarela de um País na Lua")

20081104

Pro Meu Home

Tá firmada a aliança, sim... Ocê e ieu, meu home!
Intão comé que ocê pode apontá pra mim a lança?!
Amansa, leão... Descansa, que a tua onça é mansa!
Má comé que ocê pode machucá uma criança e some?!
Solução: tua muié avança n'ocê e, vivim, te consome!

20081103

São de Espírito

"Eu sou o Espírito Santo. Em espírito, sou inteiro." (Vincent Van Gogh)

20081029

"O Cravo brigou com a Rosa"...

"Eu escolho
um homem
que não duvide
de minha coragem
que não
me acredite
inocente
que tenha
a coragem
de me tratar como
uma mulher."
(Anaïs Nin)

(Onde estaria agora o meu Lírico Lírio, o meu Doce Camponês? ONDE?!)

Tarja Negra

Ah, que medíocre paliativo!

Françoise Hardy

Créditos dos quadrinhos: Ivan Brunetti.

20081021

Além do Bem e do Mal

"Aquilo que se faz por amor parece ir sempre além dos limites do bem e do mal." (F. W. Nietzsche)

20081020

(Re)pressão

Inda não disponho de poder suficiente para combater a minha própria docilidade.

20081019

Nikos Kazantzakis

ZORBA
Lembro-me de uma manhã em que eu havia descoberto um casulo na casca de uma árvore, no momento em que a borboleta rompia o invólucro e se preparava para sair. Esperei bastante tempo, mas estava demorando muito e eu estava com pressa. Irritado, curvei-me e comecei a esquentá-lo com o meu hálito.
Eu o esquentava, impaciente, e o milagre começou a acontecer diante de mim, a um ritmo mais rápido do que o natural. O invólucro se abriu, a borboleta saiu se arrastando, e nunca hei de esquecer o horror que senti então: suas asas ainda não estavam abertas, e com todo o seu corpinho que tremia, ela se esforçava por desdobrá-las.
Curvado por cima dela, eu a ajudava com meu hálito. Em vão. Era necessária uma paciente maturação, e o desenrolar das asas deveria ser feito lentamente, ao sol. Agora era tarde demais.
Meu sopro obrigara a borboleta a se mostrar toda amarrotada, antes do tempo. Ela se agitou desesperada e, alguns segundos depois, morreu na palma da minha mão.
Aquele pequeno cadáver é, eu acho, o peso maior que tenho na consciência. Pois hoje entendo bem isto: é um pecado mortal forçar as grandes leis.
Não podemos nos apressar, ficarmos impacientes.
Sigamos com confiança o ritmo eterno.

Madrigal

MADRIGAL
Ouve, meu Amor,

a brisa que entoa melodias
ao sabor de teus belos cabelos.
Ouve, meu Amor,
o balouçar refeito em febris apelos
dos viçosos ipês-amarelos
clamando-nos pelo tempo de viver.
Ouve, meu Amor,
o teu profundo ardor,
a tua fremente urgência,
o teu eterno desejo de alvorecer.
Ouve, meu Amor,
os senis anelos do Mundo,
a Universal Mente e seus vis zelos.
Ouve, meu Amor,
o que, por fim, tenho a dizer:
sedenta, busco pela tu'alma
e anseio, perdidamente,
o ensejo de anis dias.
Tu, meu Amor, e eu, a estremecer
na mais veemente cadência.

20080828

Almas Cinzeladas

Que as "belas gêmeas", almas a cantar sobre cinzas, ainda possam esculpir-se mutuamente.
Que rara cumplicidade, que incomum sintonia! Somos almas sedentas de um profundo êxtase, Amormeuzinho... Percebes?

Purifiquemos o duplo irreal, rompamos o fio dourado que nos detém e, por fim, façamos do Amor uma canção sincera.
Beija-me com a tua alma, doce camponês... Meu coração está contigo!
Eis a minha entrega, eis a minha devoção.
Eterna.

20080827

Ordinais Naturais

Bendito seja o vosso número!

BBBlog

"Os figurinos são a ponte de ligação entre o ator e o olho do espectador. São linhas, formas, cores e significados que têm a função de ligar ator e platéia, dando pistas sobre aquele que o veste, manifestando até mesmo, externamente, formas internas de um personagem." (Fausto Viana)

20080825

Pastiche ou pistache?

Língua pra lamber resto ou língua pra manifesto?

(SANTA PAROLA!)

20080824

Coisa de Piá Pançudo

"Dos 27 eu não passo! Saca a pira... Vou virar herói, véi!"

20080814

BAH, TREM DOIDO!

"Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs." (Autoria desconhecida)

"Já não tens o ar festivo,
Das longas noites de inverno,
Quando a indiada puro cerno,
Te rodeava folgazona
E quando, sobre a carona,
Enquanto a tropa dormia,
O chiru velho mexia
Nas hileras da cordeona!"
(Jayme Caetano Braun - poeta gaúcho, TCHÊ!)

Ocê num tem ardifésmarnão
Das noitádinverno
Quandupovão bãodimaisdaconta
Rudiavocê filizim da vida
Iquando, arriado no trem,
Inquantusbicho durmia,
O cabocuvéi mixia
Nutecládassanfona!
(Livre tradução de minha autoria, SÔ!)

20080813

Artistas de Plástico

O advento da estratificação/complexificação social e a afirmação de suas inerentes relações de poder/saber ocasionaram a histórica ruptura que criou a cisão "Artes Plásticas" e "Artesanato" (oh, meras nomenclaturas, meras instâncias!). Às academias de belas-artes e aos seus altivos artífices incutiram-se o elitismo, o preconceito e tolas crendices... Quanta pretensão, não?
Leda ingenuidade, a daqueles que distinguem arte de artesanato!

"Eu fico contente por ser reconhecida como artesã." (Young-Jae Lee - artista plástica)

20080806

Círculo Vicioso

Da escravidão à emancipação; da "igualização" à coisificação.

20080804

Paulina Vinderman

LA BALADA DE CORDELIA - I
Sabrá la hora en el momento exacto
y conocerá la medida de su sombra.
Todo es fácil,
y lo difícil se aquieta lo bastante
para apresarlo con cordura.

Cordelia piensa en luz
y en el diario suicidio de la noche.
"Apresúrense que ya es hora",
había dicho Eliot un minuto antes de las doce
en un libro sin figuras en la tapa.
Duramente Dios está fuera de la línea
si sólo se trata de enmantecar un poema
mientras asoma la vigilia.
"Esa guerra es mía",
piensa Cordelia con un ojo al viento,
"y no hablaré de mi culpa existencial.
Me haré sabia de a poco, sabia de profesión
con un curriculum brillante de soberbia
y un zapato sin cordones."
De prisa, de prisa que es la hora,
porque el sol ahuyenta la locura.

20080731

Num lapso vultoso...

Num lapso vultoso

Eis que, sob uma frondosa sombra,
Despertava Karolinka de suas sonolentas lamentações.
Ainda prostrada, clamou ao Senhor
Por seu ledo lugar ao sol, junto de seu amado.
- Deus, onde estaria o meu doce camponês?
Claudicante, ergueu-se, ainda úmida da relva e das lágrimas.
Vacilava em seus passos, a afastar-se da cerrada folhagem
E tudo ao seu redor transfigurou-se num Éden tortuoso
Mas ela persistia e lutava contra espinhos e cipós.
Seu coração, desnudo e descerrado,
Já não mais podia ocultar, da cravada lança, a dor.
- Senhor, mostrai-me o caminho de volta! Ah... O meu Amor!
Então, num relance moroso,
Desfaleceu entre as folhas secas e as sempre-vivas.
Lívida, pulsante em esperança e repleta de fervor,
Karolinka ternamente orava
Pelo seu eterno Amor.

20080730

Apenas saudade?

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda, que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida." (Clarice Lispector)

20080729

Cordélia e o Eterno Amor

Foi num dia cinzento que ele trouxe-me de volta as mais intensas cores.
Revelados pelo sol de outono, tais tons, repletos de ternura e frescor, imiscuíram-se em densas pinceladas.

O Amor, enfim, revelou-se em sua rara doçura.

20080728

Súplica

PERDONI, JUSTISSIMO SIGNORE!

Leitmotiv

"EU PENSOOOO... EU PENSOOOO... EU PENSO QUEEEE...!" (Denise Stoklos)

20080706

Mazurka

"Mazurka, Mazurka
mon premier amour
c'était le tien"
(Françoise Hardy)

20080704

X-Cobiça

Desejo + Medo + Orgulho.

20080703

Praga Pós-Fordista

Explicai-me, meus caros: por que é que os capacetes cor-de-rosa têm se proliferado qual PIOLHOS entre os motociclistas?
Seria essa a décima primeira praga da humanidade?!

"Szła dzieweczka"...


Ei-la, Karolinka, eternamente em busca de seu mais nobre enleio.

Gdzie jest ta uliczka?
Gdzie jest ten dom?


Imagem: Kate Maberly em "The Secret Garden" (1993), dirigido por Agnieszka Holland.

20080702

Máscaras

Sorrisos franciscanos, línguas profanas.

20080630

Complexo de Duchamp

Créditos da tirinha: André Dahmer.
http://www.malvados.com.br

Cérebro?!

Enquanto jantava laudatoriamente, eis que certas vozes bradaram-me ao relento:
- QUE OS OUTROS COMPLETEM O TEU DISCURSO!
(Muito vago... Que discurso seria esse?!)
Pra mim, "discurso" é aquilo que atinge, agressiva ou aprazivelmente, o imo do estômago... O ÂMAGO DO APETITE!
(É a víscera mais sensível de nossos corpos, humanóides!)
Pois bem, caríssimos... Já dei-vos meu humilde parecer. Caso contrário, desgastai vossos preciosos e gulosos neurônios!
Já estou cansada de ouvir minhas próprias células nervosas. MONÓLOGOS! Minha alma grita, grita... GRITA POR ALGO MAIS!
E pergunto-vos, por fim:
quantidade ou qualidade? Peso ou massa?

(Quero vomitar.)

20080629

Flicts

"O mundo não é uma coleção de objetos naturais, com suas formas respectivas, testemunhadas pela evidência ou pela ciência: o mundo são cores." (Carlos Drummond de Andrade)

Pisca-Alerta

"Portanto, fiquemos alertas - alertas em duplo sentido.
Desde Auschwitz nós sabemos do que o ser humano é capaz.
Desde Hiroxima nós sabemos o que está em jogo."
(Viktor Frankl)

20080628

Insuportável Presença

Era ela uma criatura tísica. Seus cabelos, lisos e ralos, acortinavam-lhe o semblante. Suas mãos eram pegajosas e incrivelmente gélidas; seus dedos, compridos e ágeis.
Essa horrenda e tétrica imagem perseguia-me incansavelmente.
Era o Desespero. Era a Morte.
Enquanto isso, a voz de meu amado ecoava ao longe, qual sentinela na guarida: "Não reconheço-te mais, Carolina... Não mais. Não..."

(Registro do último sonho.)

20080627

Exortação ao Zoológico Humano

QUANTOS DE VOCÊS ESTÃO REALMENTE VIVOS?

IngSoc

Ideologia ou religião?
Seria o Grande Irmão o "último" dos deuses?

20080626

Valsa

Qual hastes gêmeas dum compasso, assim somos nós: enquanto uma alma circunvaga em seu percurso, a outra, a partir de seu centro, logo inclina-se em direção à primeira... E só ergue-se novamente quando seu par retorna ao ponto de onde partiu. Obliquamente vagamos distantes, mas entre nossas almas não há separação. O desenho que traçamos é dádiva de um raro amor. Amor verdadeiro. É presença que não se define debaixo do sol. Amor sublime. Ah, quem são as palavras agora? Rotos conceitos! Tão-somente tentativas demasiado humanas. Aprendi a des-definir certas coisas e assim desvencilhei-me de crenças apodrecidas. E continuo a derrotar as mediocridades mundanas.

Ziraldo

Melodia em Sol Sustenido Menor

O mistério se desfez no silêncio. Adágio. Soa então a primeira nota duma idílica sinfonia. Movimentos. Um após outro e a solidão já serenava. Arpejos irrompiam em patéticos reflexos especulares. O ocaso. Uma frágil flecha pulsa naquela pauta de metal. Furor poético. A escala cromática se esvai na tensão. O caos. Já não existem conceitos. Segue a melodia em infindáveis improvisos. O acaso. Resplandece agora luz singular. Clave de sol. Eis que surge o último sinal. Reflexos multiplicados. Ofuscante desejo. Pupilas-espelho incessantemente a pulsar. Encontro no rastro dos cabelos ensolarados. Riqueza cíclica de incomuns timbres. Mãos. O matrimônio da Natureza e do Universo. Insondável estranheza. Já não existem limites. Uníssono. Único corpo. Único espelho. Único Amor.

Frágil Rosa?

"É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas. Dizem que são tão belas! Do contrário, quem virá visitar-me? Tu estarás longe... Quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras." (Antoine de Saint-Exupéry - "O Pequeno Príncipe")

Kocham Cię! Na zawsze!

Intermezzo romântico da Polonaise.

20080625

Stultifera Navis

"Não-razão", "desrazão"... Lassos conceitos!
Seriam realmente tênues as fronteiras entre a Liberdade e a convencionada loucura patológica?

20080623

"Álfur Út Úr Hól"

Ecce homo Zarathustra.

20080620

Polonaise

A sentir a energia da terra, baila Cordélia nos braços da sombria amiga.
Desnuda e descalça, esboça seu último sorriso para a Vida.

Cinéreos Dias

Muitas primaveras inda hão de vir. Eis a esperança que jamais fenecerá.
Ledas e coloridas auroras inda trarão a nós muito mais vida.
E este é apenas o começo: o Inexplicável.

Uy!

MOD-EMO-DÊ.

Pintores

Créditos da tirinha: André Dahmer.
http://www.malvados.com.br

20080606

Permanece a Palavra

"Deve-se, ao se contrair um casamento, colocar-se a pergunta: você crê que poderá conversar prazerosamente com esta mulher até a velhice? Tudo o mais é transitório no casamento." (F. W. Nietzsche)

20080603

Mulher Virtuosa

"Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis.
O coração do seu marido está nela confiado; assim ele não necessitará de despojo.
Ela só lhe faz bem, e não mal, todos os dias da sua vida.
Busca lã e linho, e trabalha de boa vontade com suas mãos.
Como o navio mercante, ela traz de longe o seu pão.
Levanta-se, mesmo à noite, para dar de comer aos da casa, e distribuir a tarefa das servas.
Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com o fruto de suas mãos.
Cinge os seus lombos de força, e fortalece os seus braços.
Vê que é boa a sua mercadoria; e a sua lâmpada não se apaga de noite.
Estende as suas mãos ao fuso, e suas mãos pegam na roca.
Abre a sua mão ao pobre, e estende as suas mãos ao necessitado.
Não teme a neve na sua casa, porque toda a sua família está vestida de escarlata.
Faz para si cobertas de tapeçaria; seu vestido é de seda e de púrpura.
Seu marido é conhecido nas portas, e assenta-se entre os anciãos da terra.
Faz panos de linho fino e vende-os, e entrega cintos aos mercadores.
A força e a honra são seu vestido, e se alegrará com o dia futuro.
Abre a sua boca com sabedoria, e a lei da beneficência está na sua língua.
Está atenta ao andamento da casa, e não come o pão da preguiça.
Levantam-se seus filhos e chamam-na bem-aventurada; seu marido também, e ele a louva.
Muitas filhas têm procedido virtuosamente, mas tu és, de todas, a mais excelente!"
(Pv. 31: 10-29)

"Um mais um é sempre mais que dois"...

Não quero UNICIDADE. Quero UNIÃO.

20080531

Alphonsus de Guimaraens

DEITAS TEU CORPO EM FLOR
Deitas teu corpo em flor no campo claro
e toda ao sol te entregas, matinal.
Um perfume de luz se espalha qual
puro delírio, canto esquivo e raro.

Sorver o aroma, recolher o puro
estremecer de flor, ó pólen, ó mel
que irrompendo de tudo vibra em céu
de água a cair das coisas num futuro

instante de fantástica beleza
e de beijo e de afago e de um supremo
arfar de chama em límpida penugem.

Deitas teu corpo em flor, e a natureza
Funde-se em ti no alto silêncio extremo
de volúpia desfeita em brisa e nuvem.

20080529

Inteireza

A confiança que depositamos no outro é o espelho de nossa própria confiabilidade.

20080525

Maio de 68

20080518

EBAgunça

Corporações de Ofício, fiéis acordos de cumplicidade... DUVIDOSAS trocas, em suma!
Escola de Belas Artes: vós sois o iníquo antro escambador!
Apresento-vos, EBA, vossa bela alcunha: Eclésia da Beatice Artística!
Ó, Altíssima Academia! Vossos discursos são comoventes ludíbrios! Quereis angariar mais e mais complacentes carolas a fim de salvardes tais almas de sua penosa indigência?! Oh, decerto...!
À margem de vossos sujos ditames e cânones, cá estou. Eis a voz da resistência. Eis a vez do contrapoder.

Questionemos, pois, a suposta (IMPOSTA, NON?) "hierarquia" entre ARTESÃOS, ARTISTAS e ARTISTÓIDES.

O "pseudo" reinaria, enfim?!

Breve, dEBAndarei... Este é meu derradeiro manifesto acadêmico. Com muito louvor.

20080515

Orang-e = Orang-utan

Intempestivamente, as palavras e as coisas amalgamam-se. Constituem implacáveis ambigüidades, constroem belíssimas dialéticas.
Maquiavélicos símbolos!
Por fim, eis que (do)minam os fracos.

20080508

De que vale a pasteurizada "erudição", por fim?

Consciências medíocres apenas passam (ou melhor, CORREM) sem deixar rastros; consciências "atormentadas" caminham, colhem do solo pequenos ramos de VIDA e assinalam profundamente seus lastros.

"O sucesso dos grandes eruditos e pensadores assemelha-se ao dos cortesãos, não é um sucesso de soberano ou de homem. Arranjam meios de viver sempre em conformidade, da mesma forma que o fizeram seus pais, e de modo algum são os genitores de uma raça de homens mais nobres." (Henry David Thoreau)

Meu Homem

MEU HOMEM
Tu emanas a harmonia, de tal fervor, sísmica.

Eis o homem a convocar-me o pranto
Junto à sua rítmica tábua de suplícios.

Quanta sinergia, quanto encanto, quanto ardor!

Meu homem, seria eu a tua vítima?
Meu homem, seria eu, de tanto labor, digna?

Teu acalanto, Amor, é elegia de todos os vícios!

Enquanto sinfonia, homem, dizimas-me a dor
Enquanto energia, Amor, afanas-me o real temor.

20080505

Consciência III

"A Consciência III não vê apenas uma série de erros políticos e públicos, como o poderia ter visto um liberal do New Deal, mas também os males mais profundos que Kafka, os expressionistas alemães ou Dickens teriam visto: velhos lançados em asilos, ruas que o gás néon e o comercialismo tornam horrorosas, o conformismo servil, o espírito de competição e a esterilidade da vida nos subúrbios, a solidão e a ausência de normas sociais das cidades, a devastação da natureza pelas escavadeiras e pela poluição, a estúpida irracionalidade de quase todo o ensino secundário, o rude materialismo da maioria dos valores, a falta de amor da maior parte dos casais e, principalmente, a qualidade plástica e artificial de tudo, vidas de plástico em casas de plástico." (Charles Reich)

20080504

Racio-Símio

Estruturo meu pensamento através do Caos, e eis que este, por sua vez, reelabora-me a convencionada "incoerência".

20080429

O Fio de Ariadne

Sapiência, teu nome é Amor!
Enleia-me eternamente em tua perfeita espiral!

Dois Minutos de Ódio

"Cumprimentos da era de uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensar!" (George Orwell)

20080426

Aphorismo 655321

A Noite, senhora das ausências, é mãe da Inspiração.

20080425

O que significa isso...?

Eu, enquanto a Mesma e a Outra, não ouço-me ante o colossal escape.
Delírio?! Ah! Ainda não, meus caros! É tão-somente uma mera escolha... A de não me fazer compreender! Então questiono: encontrastes, decerto, vossos coerentes fins - e será que eles justificam os vossos supostos meios?

(Perdi o "raciocínio", confesso.)

Qualquer coisa é válida.
Então louvo e legitimo qualquer contra-senso.

(VIVA!)

Eis a minha palavra, por ora.
Aguardai a real demência.

20080422

Todo o Vigor

"Energia é a eterna delícia. Aquele que deseja mas não age cria pestilência." (William Blake)

20080418

Tratamento Ludovico

"A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos 'dóceis'. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência)." (Michel Foucault)

"Eles transformaram você em outra coisa que não um ser humano. Você não tem mais poder de escolha. Você está obrigado a atos socialmente aceitáveis, uma maquineta capaz de fazer somente o bem. E vejo isso com toda a clareza - esse negócio dos condicionamentos marginais." (Anthony Burgess)


(Mastigadinho pra quem não compreendeu: eis a tal "lavagem cerebral"... Lembram-se dela, caros druguinhos? Ou tornaram-se criaturas duplipensantes?... Então cuspo tudo nos seus ignóbeis litsos! - Belo govorite, não?)

Um Sonho na Tempestade

Eram infinitas rampas, íngremes obstáculos a serem vencidos. Alguns deles eram verdadeiras escarpas. Alternavam-se ríspidas superfícies e caminhos escorregadios.
Com todas as minhas forças, eu lutava para atingir o último platô. Minha meta parecia-me cada vez mais remota e impossível, pois que sempre deslizava ou então prostrava-me ante aquele solo hostil. Machuquei-me muito. O fluido vital banhava-me. Meu sangue era de um vivo verdor. Cheguei a desesperar-me de tanta dor.
Em outros momentos, agarrava-me a alguns galhos de plantas que margeavam as sendas. Mas elas tinham enormes espinhos. E esses impiedosos acúleos cortavam-me a carne feito navalhas.
Quando finalmente consegui alcançar as alturas, uma fortíssima e aplacadora chuva atingiu-me. Era um verdadeiro dilúvio. Vencida pela bravura da tempestade, caí de volta ao platô inicial.
Muito ferida e cansada, recomecei a luta. Parecia-me eterna. Mas um sonho, um grande e nobre sonho, impulsionava-me. E persisti com a leda esperança em meu coração.

(Registro do último sonho.)

20080410

Rastro, Registro, Memória

Um digno nome se escreve fundo... Nada mais do que isso.
Eis a verdadeira intensidade. Aquela que, de fato, faz dobrar os sinos.
Tenho dito.

20080405

Senso Comum

Lavagem cerebral.
É como se a efemeridade da vida fosse, na verdade, uma ENFERMIDADE!

20080311

O Ausente

O AUSENTE
Diante do Ausente, não sossego a tez
Contemplo o vácuo, contemplo a falta
A falta de seu peito, a falta do compasso
de nossos corações, poeticamente sintonizados.

Diante do Ausente, não sou mais a mesma
Disperso-me na turva névoa, no vazio espaço
que meu coração reclama, atormentado
E desvaneço-me, como consolo, em lágrimas de Amor.

Diante do Ausente, enfim, esmoreço
Esmoreço ante a solidão e a tortura de apenas ser
Ah, meu Amor! Quero-te aqui, ao meu lado!
Vem logo, meu doce camponês!
Meu semblante, sem ti, é lasso
Refeitos em delícias e em mágoas, fomos batizados
pelo sangue, pelos prazeres e pela dor.

Toquemos, com coragem, pra fora de nossa casa,
a tristeza que o Poeta disse não ter fim.
Diga-me que isso é só o começo, Amormeuzinho!
Eis o início de uma reviravolta, a hora de termos paz!
Tornemo-nos um só! Eis a nossa preciosa vez!

Somente contigo quero a plenitude do viver.

20080303

Suspensa na vacuidade de minha mente...

Suspensa na vacuidade de minha mente
Decanto-me apenas na tua memória, cigano
A valsa de nossos corpos me desvela a carne
E devolve-me tudo aquilo já desacreditado.

Detida em lágrimas torrentes
Vislumbro teus cerúleos olhos, cigano
Torno-me néscia ante teus encantos matreiros
E assim tu me redimes aquela espúria semente.

Ritmada pela potência, pelo pulso fremente
De um ermo qualquer ecôo teu nome, cigano
Então finalmente idealizamos a sinfonia indolor
Tocamos a verdade com um gesto faceiro
E revelamos, com um sopro de vida, o eterno Amor.

Evocação a Cordélia

EVOCAÇÃO A CORDÉLIA
Vai, Cordélia!

Despe-te daquele diáfano vestido
Despoja-te de tuas sandálias
E cobre teus cabelos de amores-perfeitos

Vai, Cordélia!
Eis que por ti espera um doce camponês
Entoa então canções com as gralhas, tão raras,
E baila imersa no primaveril orvalho

Vai, Cordélia!
Entrega-te em tua plena nudez
E corre, corre de encontro ao teu amado
Tu és bela em tua leda pureza

Criança, finalmente tocaste a eternidade.